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Mais de 17,5 mil seringueiros recebem benefícios

27/05/2003 14:37

Os Soldados da Borracha participaram do esforço da 2ª Guerra

De Manaus (AM) – Os chamados Soldados da Borracha comemoram, hoje (27), 60 anos da partida de Fortaleza rumo aos seringais da Amazônia. Esse é o termo utilizado para identificar aqueles jovens que participaram dos esforços para a coleta do látex das seringueiras nativas, com o qual fabricava-se a borracha na Amazônia, durante a Segunda Guerra Mundial (1942 a 1945).

Os Soldados da Borracha integram, desde o ano de 1990, uma categoria específica de beneficiários da Previdência Social, regulamentada inicialmente pela Lei 7.986/90 e, posteriormente, pela Lei 9.422/96, que concedeu a esses trabalhadores uma pensão mensal vitalícia de dois salários mínimos, como reconhecimento pelo árduo trabalho realizado nos seringais.

Segundo o seringueiro Clóvis Farias Barreto, 78 anos, fundador e atual presidente do Sindicato dos Seringueiros e Soldados da Borracha e Pensionistas da Previdência Social do Estado do Amazonas, “em 1941, o cenário brasileiro abrigava, pelo menos, três grandes conflitos: a ameaça do início da Segunda Guerra Mundial, a perene e ignorada seca do sertão nordestino e a guerra pela sobrevivência na selva Amazônica, isso porque o crescimento da utilização de automóveis introduziu um novo ritmo à extração da borracha na região”.

Trêmulo, em decorrência do mal de Alzheimer, Clóvis Barreto recorda, emocionado, aquele período que, apesar de distante, permanece ainda nítido em sua memória. Em 1943, milhares de jovens brasileiros foram obrigados a escolher pelo envolvimento em um desses conflitos porque cidadãos em condições de servir ao Exército foram chamados para trabalhar nos seringais da Amazônia, com garantia de custeio das despesas de ida e volta, roupas e remuneração direta.

Em Quixadá, a 166 Km de Fortaleza, capital do Estado do Ceará, Clóvis, com apenas 18 anos, fez a sua escolha, deixando a lida com a terra, a família, o lugar onde nasceu, para se aventurar nos seringais da Amazônia. Assim decidiu, pensando que “além de escapar da convocação militar, era também uma grande chance de conseguir um bom emprego e de fugir da terrível seca”, relata Clóvis. Como ele, outros 60 mil nordestinos atenderam ao apelo do governo brasileiro que, para cumprir o Acordo de Washington, firmado com os Estados Unidos, precisava produzir e enviar à América do Norte, cerca de 100 mil toneladas de borracha por ano, num esforço conjunto para evitar o colapso na indústria bélica e a paralisação de 27 milhões de automóveis.

Os meios de comunicação veiculavam promessas que eram verdadeiro chamariz para os desaviados. A propaganda oficial fazia cada novo trabalhador na seringa se sentir um genuíno soldado de um novo front, a Amazônia. O patriotismo era estimulado: a vitória na guerra dependia da reserva do látex brasileiro e da força de voluntários, chamados pela imprensa e pelo governo de Soldados da Borracha.

Atraídos pela propaganda que apelava pelo patriotismo, cerca de 60 mil nordestinos inscreverem-se como voluntários, mediante a promessa de que, ao término da guerra, retornariam a seus estados de origem e com soldo correspondente ao dos soldados enviados ao front. Clóvis cadastrou-se na própria cidade de Quixadá, juntamente com o irmão de dezessete anos, Osmir Barreto, que lamentavelmente não conseguiu sobreviver às dificuldades dos seringais.

A promessa de fortuna atraiu tantos voluntários que surgiu a necessidade de uma seleção entre os candidatos. Da mesma forma que os convocados para a 2ª Guerra, para a Campanha da Borracha foi dada preferência àqueles que possuíam o perfil do chamado “normolíneo” (tipo com pêlos e pescoço longo), pois havia necessidade que o candidato possuísse resistência física. Com base nesse citério, aqueles tidos como “disgenopata”, (tipo com joelhos arcados e “inferioridade” psíquica) eram sumariamente dispensados.

Os escolhidos na criteriosa seleção ganhavam um enxoval, constituído de uma calça de mescla azul, uma blusa de morim branco, um chapéu de palha, um par de alparcatas de rabicho, uma caneca de flandre, um prato fundo, um talher, uma rede, uma carteira de cigarros Colomy e um saco de estopa que susbstituia a mala. A saída de Fortaleza aconteceu em 27 de maio de 1943.

Do cadastramento no Ceará até a chegada no Amazonas transcorreram quase seis meses. A viagem rumo à “Terra da Fortuna”, como a propaganda chamava a Amazônia, iniciou com uma frota de 100 caminhões de carga, sem cobertura, que conduziram os “Soldados da Borracha” até Teresina (PI). A segunda etapa da viagem, com destino a São Luiz (MA), foi realizada em um trem usado para transportar gado. “Não tinha ar lá dentro. Para respirar, era necessário abrir todas as portas, sendo que alguns passageiros preferiam arriscar a vida viajando pendurados”, recorda-se Clóvis.

Na capital do Maranhão, a tropa embarcou no navio Itapuí com destino a Belém (PA), onde permaneceu num galpão, chamado “Pousada Tapanã”, por quase dois meses, aguardando o navio americano State of Delamare que os levou até Manaus, numa viagem que durou 15 dias. Em Manaus, os migrantes eram esperados pelos futuros patrões, os seringalistas, que providenciavam o transporte até o seringal.

Nos seringais, a vida se resumia em sair pela madrugada a percorrer a trilha, rachando as seringueiras e retornar, ao final do dia, juntando o leite, matéria prima que era defumada, enrolada em remos de madeira, para produzir a borracha, que seria então trocada por mercadorias ou utilizada para abater a dívida contraída em compras anteriores.

Conforme lembra Clóvis, ao ser admitido, o soldado recebia seus instrumentos de trabalho, gêneros alimentícios, utensílios de casa e outros itens, que eram devidamente registrados em uma conta aberta em seu nome. “O patrão anotava o débito e a gente trabalhava duro para pagar uma conta que só crescia”, lembra o presidente do sindicato. “Tudo era vendido a preço dobrado, por uma única pessoa que não tinha nenhuma pressa em dar baixa naqueles números infindáveis. Eram verdadeiras algemas invisíveis para um exército de enganados”. O que o soldado apurava com o trabalho mal dava para cobrir a despesa com alimentação e, somente em raríssimas ocasiões, sobrava algum dinheiro.

Ao serem arregimentados, os nordestinos não tinham a menor idéia do que era o trabalho nos seringais. Eles fugiram de uma guerra real e se depararam com uma outra guerra, cujo inimigo era desconhecido, muitas vezes invisível. Como bem lembra Clóvis, escaparam do confronto com os alemães e japoneses, mas tiveram que lutar bravamente contra os males tropicais, a fome, a escravidão e, por fim, o abandono.

Com o fim da guerra e a recuperação das plantações no sudeste asiático, o projeto dos americanos entrou em decadência. As instalações, abandonadas, transformaram-se em apenas lembranças de promessas não cumpridas. Os soldados foram então desmobilizados, mas a grande maioria não pôde deixar os seringais em razão das dívidas contraídas junto aos patrões.

Segundo dados do sindicato, que já registrou 8.500 Soldados da Borracha no Amazonas, dos 60 mil alistados, 75% morreram dentro dos seringais. Pouquíssimos sobreviventes retornaram ao nordeste. A maioria permaneceu na Amazônia lutando pelo cumprimento das promessas anunciadas por ocasão do recrutamento.

Ainda segundo Clóvis Barreto, somente em 1988, 43 anos depois, os Soldados da Borracha obtiveram a primeria grande vitória. A Constituição Federal instituiu a pensão mensal vitalícia, que passou a ser paga pelo INSS.

Somente no último mês de abril, a Previdência Social pagou, em todo o País, 17.551 benefícios especiais a seringueiros ou a seus dependentes, no valor total de R$ 8,4 milhões. A maioria desses benefícios são pagos nos estados da região Norte: Acre (9.687), Rondônia (2.535), Amazonas (2.851), Pará (1.841), Roraima (45) e Amapá (12), o que comprova que a grande maioria dos Soldados da Borracha, de fato, não retornaram aos seus estados de origem após a guerra, como lhes havia sido prometido. (MCC/JEF)